O destino de Betancourt

04/04/2008 15:49:32

Wálter Fanganiello Maierovitch

Jacob Arenas foi o primeiro dirigente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele gostava de contar um fato ocorrido em maio de 1964, do qual resultou o nascimento das Farc, no Vale de Marquetalia, departamento de Caldas, no lado oriental da cordilheira andina.

Camponeses, posseiros e pequenos proprietários, vinham, à época, sendo expulsos violentamente das suas casas por latifundiários desejosos de estender os seus domínios improdutivos. Então, pequenos grupos de resistência se formaram. Na seqüência, o Exército colombiano interveio e promoveu sangrentas batalhas, em favor dos latifundiários.

Anastásia era a mais bela e sensual das jovens de Marquetalia. Em 27 de maio de 1964, 16 mil soldados caçavam pela região cerca de 40 guerrilheiros, dentre eles Jacob Arenas e um pequeno sitiante, rude e desconhecedor de ideologias políticas, chamado Manuel Marulanda Vélez. Como Marulanda era bom de pontaria, acabou logo apelidado de Tiro Fijo.

Naquele mesmo ano, Marulanda preparou uma mina com dinamite e pedaços de ferro, colocada num barril de aguardente. À mina, Marulanda chamou de Anastásia, em homenagem à jovem. Coube a ela atrair um pelotão de soldados, todos mortos pela explosão da mina e por uma tempestade de projéteis disparados pelo grupo de Marulanda.

Esse foi, segundo Arenas, o primeiro grande embate, que levou o grupo, com o reforço das armas e munições dos soldados mortos, a fundar as Farc, em 20 de junho de 1964.

Depois dessa história, Arenas narrava o dia seguinte à batalha. Ou seja, Tiro Fijo e os seus vizinhos organizaram uma festança, com dança, cantos revolucionários, tudo ao som de maracas e violões. “Éramos felizes”, concluía Arenas, “pois combatíamos, comíamos, dormíamos, cantávamos e recitávamos pedaços de pequenas peças de teatro.”

Arenas morreu de infarto em 1990, aos 72 anos. Não realizou o sonho de morrer em combate, grudado ao cano de um fuzil ainda a soltar fumaça. Quando faleceu, as Farc já eram integradas, como hoje, por sete secretários, com o fundador Manuel Marulanda no comando-geral.

Arenas, no entanto, jamais imaginou que a organização fosse mudar de orientação, a explorar as extorsões mediante seqüestro, controlar áreas de plantio de coca, receber porcentual pelo produzido nos laboratórios de refino de cloridrato de cocaína e, por fim, experimentar litígios entre os seus membros de cúpula. Em síntese, a organização perdeu a identidade, colocou de lado o marxismo e se transformou num bando criminal, com dirigentes insensíveis e assassinos.

No mês de março, a crise atingiu o vértice das Farc. Morreram Raúl Reyes e Ivan Rios, cujo nome verdadeiro era Manuel Muñoz Ortiz. Reyes foi executado em território do Equador, pelas forças invasoras do presidente Álvaro Uribe, como fartamente noticiado. Por seu lado, Ivan Rios restou metralhado por um seu comandado de nome Rojas, com apoio dos demais subordinados. Rojas entregou o passaporte e o computador da vítima para o oficial do quartel de San Mateus.

O comandante Raúl Reyes mantinha dissenso aberto com Ivan Rios, o delfim de Marulanda. Rios tinha feito estudos universitários em Medellín e era considerado, por Marulanda, o mais bem preparado intelectualmente. Apesar dos atritos, os dois guardavam o mesmo segredo sobre Marulanda, que, segundo corre pelas selvas, estaria com câncer e em fase terminal.

Num recente encontro com o filósofo e documentarista Bernard-Henri Lévy, o comandante Ivan, o terceiro dos sete secretários da cúpula das Farc, mostrava um novo lado, a surpreender o francês.

Em artigo publicado na imprensa européia, Henri Lévy conta ter Ivan Rios tentado convencê-lo de que a postura das Farc com relação às drogas representava uma forma de “resistência à opressão, um meio de defesa da classe camponesa pobre, pilhada pelo grande capitalismo”. Quanto aos seqüestros, mostrou-se desumano e inescrupuloso.

Para ele, havia “profunda justiça” na estratégia empregada com os cativos de seqüestros. Esse quadro é de pleno conhecimento do presidente francês Nicolas Sarkozy, que, com razão, teme pela morte de Ingrid Betancourt. Emissários de diferentes países, com a liderança do ex-embaixador francês na Colômbia, encampam uma luta humanitária e correm contra o relógio para salvar Betancourt, também cidadã francesa.

A mensagem de Sarkozy passou pela análise de vários especialistas e o recado foi bem dado: “A morte de Ingrid seria um erro político e uma tragédia humanitária”.

Lógico que a crise aberta na cúpula das Farc é do conhecimento da brava Betancourt. Para os que conhecem a flama de Betancourt, a greve de fome que faz é um ato lúcido, embora uma via que poderá conduzi-la à morte.

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