Bin Laden cinquentão

Nem integrantes da Jihad nem Bush têm interesse em provar a morte do criador da Al-Qaeda. Vivo ou morto ele continua a influenciar

Walter Fanganiello Maierovitch

Caso esteja vivo, Osama bin Laden completará 50 anos no sábado, 10 de março. Para os 007 da espionagem norte-americana, a reorganização dos talebans e da Al-Qaeda, a partir do sul do Afeganistão, onde se concentra o plantio de ópio controlado por chefes dos clãs chamados “Senhores das Guerras”, é obra de gestão com digitais de Bin Laden e execução entregue ao mulá Mohammed Omar, seu sogro.

Pelo jeito, Bin Laden sobreviveu no curso dos seis anos da tomada do Afeganistão pelas forças aliadas. O engano de Bush acabou dispendioso financeiramente: o xeque saudita, ao que parece, não estava escondido nas cavernas da região montanhosa de Tora-Bora, submetida a ataques com bombas penetrantes no solo, de última geração.

Caso entocado em Tora-Bora, Bin Laden não teria a mínima chance de sobreviver. Dos pedaços de corpos encontrados e submetidos a exames de DNA, nenhum pertencia a ele.

Com muitos apelidos e “aliases”, como Príncipe da Morte, Hajj, Mujahid Shaykh, Emir, Abu Abdallah, Director, o fundador da Al-Qaeda, constituída em 1988, conseguiu introduzir e espalhar pelo planeta, depois dos ataques às torres gêmeas de Nova York e ao Pentágono em Washington, o sistema de franchising do terror.

Por meio de tradição oral, todos os jihadistas sabem que as células da Al-Qaeda têm liberdade operacional e vida própria. No entanto, elas ficam sujeitas ao controle ideológico do leadership Bin Laden e do segundo homem na hierarquia, o egípcio Al Zawahiri. A respeito, foi significativo o puxão de orelha dado em Al Zarquawi, então chefe da Al-Qaeda do Iraque: seu sucessor está sob silêncio obsequioso, para usar uma linguagem vaticana.

Embora com a cidadania saudita caçada e visto como deserdado pela riquíssima família Laden, ligada à nobreza da Arábia Saudita, a CIA sempre desconfiou, mas nunca comprovou, que Bin Laden recebia muito dinheiro dos parentes. Só com a herança do pai, um construtor nascido no Iemên do Sul e que caiu nas graças da família real, embolsaria estimados 300 milhões de dólares, mas só teria conseguido pôr as mãos em 25 milhões de dólares. E 25 milhões de dólares é a quantia oferecida pelo ex-presidente Bill Clinton pela sua cabeça.

Formado em economia, gestão administrativa e engenharia civil, Bin Laden sempre soube engendrar operações financeiras, sem deixar rastro. Aliás, aprendeu com a CIA como evitar o rastreamento de capitais: recebeu milhões de dólares da agência americana na luta de expulsão dos soviéticos do Afeganistão.

Sem problema de caixa, Bin Laden executou os ataques espetaculares, no mesmo dia 7 de agosto de 1998, às embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quênia) e em Dar Es-Salaam, na Tanzânia.

Com o prestígio de quem mandou explodir duas embaixadas e foi expulso do Sudão por pressão norte-americana, Bin Laden qualificou-se e foi um dos cinco signatários, no mesmo ano dos ataques, da fatwa, ou seja, do decreto-compromisso de eliminação de judeus e cristãos e, de quebra, de eliminação dos norte-americanos, civis ou militares, e aliados. Aí, ele se aproximou do fanático médico Zawahiri, membro fundador da Irmandade Islâmica egípcia e hoje segundo na hierarquia da Al-Qaeda.

Nos 50 anos de Bin Laden, a verdade é que nem jihadistas nem o governo Bush têm interesse de sustentar ou comprovar que ele está morto.

A última aparição de Bin Laden ocorreu em 29 de outubro de 2004, em vídeo exibido pela televisão Al-Jazzira, do Catar. Segundo a leitura dos analistas do Pentágono, o saudita, pela primeira vez, admitiu haver planificado e apoiado os covardes ataques de 11 de setembro de 2001.

É bom lembrar que o vídeo foi exibido às vésperas das eleições presidenciais nos EUA e só favoreceu o candidato George W. Bush, que tinha como bandeira de campanha a luta permanente e sem fronteiras contra o terrorismo internacional. No momento e para o governo Bush, o xeque saudita “não é mais tão importante e Bin Laden representa apenas uma parte do problema”.

Para a causa dos jihadistas é suficiente acreditar num Bin Laden vivo. O certo é que ele já se tornou imortal. Vivo ou morto, ele continuará a influenciar.

Nas interceptações telefônicas realizadas na Europa e no Oriente Médio pelos 007 dos serviços de inteligência, os extremistas grampeados falam como se Laden estivesse a remeter diariamente e-mails, com palavras de ordem, incentivos e ensinamentos diários.

A respeito do sumiço de Laden, muitos jihadistas lembram do conselho dado ao filho e que vazou para um jornal árabe: “A superexposição na mídia é prejudicial, danosa”.

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