argumento para um vídeo de agitação

 

 

OBS: O texto a seguir é um argumento de um vídeo que está sendo feito e que em breve vai ser postado nesse blog.

I

Desde de 1990 estamos passando por uma transição dentro do que concebemos como indústria cultural. Rádios, TVs, Revistas e Jornais não conseguem mais estabelecer o vínculo que tinham com seus leitores, espectadores e consumidores. São incapazes de criar a hegemonia que criavam. Fala-se em ruptura, mas desde a década perdida se vê um vazio e um marasmo dentro da cultura de massa, tenta-se criar novos estilos dentro do rock, novas formas de se fazer cinema. Porém, o que se viu foi uma série de clichês criados por marketeiros oportunistas pra faturar nas costas dos otários.

A internet ainda é vista como uma aberração, como um desaforo e o MP3 é uma insolência. Tanto a internet e o MP3 não atingiram o seu potencial, muita coisa ainda está por vir e muita coisa está pra mudar, agora o que falta mudar é o nosso referencial cultural, referencial que garante o imperialismo cultural vigente. Esse consenso construído e imposto pelos centros econômicos mundiais. O nome desse consenso chama-se modelo cultural renascentista, somado a esse temos outro problema gerado pelo sua imposição feita pelos detentores do poder. Ou se muda esse uso ou se acaba com esse modelo criando algo novo.

Fala-se em era da informação e tem se entendido a cultura de massa, fruto de um modo de produção quase que industrial, como economia criativa. Tal economia seria um nicho, um segmento de prestação de serviços e produção de bens onde acima do processo técnico e racional, estaria a criatividade, a emoção e a inovação. Esse fato novo tem gerado muito debate nos meios eruditos e econômicos das grandes potências, criou-se fóruns internacionais e a ONU tem prestado o seu papel de sempre, de capacho dos países do dito “1º mundo”, que desde de já marca território num ambiente que não foi ainda criado. O que será que eles temem? Será que eles temem a periferia cultural do globo, que não tem como referencial o modelo cultural do renascentista? Que tem assimilado a informática e a internet tão depressa?


II

A nossa dominação cultural está ligada a demasiada valorização que se dá ao modelo cultural renascentista, a tacanhísse da elite brasileira em relação a nossa produção cultura e o seu provincianismo cultural, mas antes de apresentarmos esses vícios, devemos conceituar o que é essa dominação cultural e esse provincianismo. Que tenta se justificar o rebaixamento da nossa cultura por não termos um passado renascentista e moderno, onde a nossa cultura popular e regional é vista como exótica, ultrapassada e inferior.

Por outro lado, temos que entender que a elite brasileira está instaurada no poder para manter o nosso status de capachos da Europa e do EUA. Qualquer raciocínio que rompa com isso a elite vai intervir violentamente pra manter a dominação com ajuda tanto da Europa como dos EUA, pois são essas duas forças que garantem a existência dessa elite, por isso o seu provincianismo e fidelidade a seus soberanos. O provincianismo, que nada mais é do que essa conduta cultural da elite e da pequena burguesia em considerar tudo o que é feito aqui inferior ao que é feito lá – Europa e EUA.

Para esclarecer o que é essa dominação cultural, faço um esboço de como isso se procede: primeiro essa dominação é ideológica, ou seja, o nosso gosto é construído segundo o modelo renascentista, o que achamos que tem valor artístico e cultural está nesse modelo, além disso a dominação se procede porque quem decide o que é bom para nós, ou que é de valor na cultura brasileira não são os brasileiros ou seja, são esses centros dominadores. Eles decidem o que é brasileiro e o que é bom pra nós, não é de se estranhar que sempre vemos na TV um bando de gringos, geralmente americanos ou ingleses, com o título de brasilianistas, ou seja, são profissionais especializados em o que é brasileiro, em dar palpite na nossa vida cultural, na nossa política e na nossa sociedade, além disso temos aquele velho chavão de que só é bom alguma coisa quando é reconhecida lá fora. Quem toma a decisão pra dizer o que é bom ou é ruim, quem valora a nossa cultura são as potências hegemonicas, daí a preocupação deles em moldar e construir o nosso gosto, por isso o comportamento da nossa mídia de massa, dos jornais, canais de televisão e revistas em ser capachos desses centros.

O exemplo dado foi a dominação dos gostos que é ideológica e interna. Existe a dominação cultural externa, que se procede na produção e na distribuição dos bens culturais, essa dominação está relacionada com a cultura de massa e de consumo. Na década de 60, quando esse fenômeno se instalou no Brasil durante uma ditadura militar que tinha como órgão oficial de propaganda a TV Globo, alguns artistas e intelectuais tentaram influir nesse processo criando um agir cultural chamado de Produssumo, são os nomes Décio Pignatari e Rogério Duprat, vale dizer que se tivemos um momento áureo nessas década, foi em parte pela a intromissão do pessoal preocupado com esse fenômeno cultural de massa que hoje é controlado e administrado por agentes estrangeiros, por multinacionais, vide o exemplo das gravadoras e distribuidoras de discos ou filmes. Eles controlam a distribuição do que é feito, eles escolhem o que é posto para nós escolhermos quando fomos “consumir” esses bens culturais, por isso a preocupação desses agentes com a internet e os programas de troca de arquivos, bem como a sua preocupação com a lei de direito autoral, que nada mais é do que uma criação dessa turma para garantir sua hegemonia cultural e econômica no nosso país. O que eles fazem deve ser considerado criminoso, como por exemplo ignorar iniciativas culturais que tenham um apelo ao consumo de massa, boicotando e não distribuindo esses bens, como também a sua política de saturar a oferta dos bens culturais que são produzidos e distribuídos por essa mesma corja, nesse caso o excesso dessa oferta gera a demanda pelo consumo por falta de opção ao público consumidor. Além da dominação na distribuição, temos a dominação na produção dos bens culturais, o que significa dizer que o que consumimos não é produzido aqui e não segue a nossa perspectiva e possibilidade. Significa dizer que essa dominação impõe um padrão de produção altamente caro e desperdicioso a nossa condição como periferia cultural, ou seja, já recebemos essa denominação de periferia por não sermos centros produtores e distribuidores de cultura, o que significa dizer que além de termos que seguir um padrão estético, temos que seguir um padrão técnico para a produção cultural, seja ela o cinema, a música ou até para produzir uma HQ.

Dessa forma, criam várias barreiras que nos impedem de produzir cultura, vale dizer que o motivo dessa dominação é mais político do que econômico, digo isso comparando os números da nossa produção cultural de massa. Antes da ditadura a média de público para um filme brasileiro era 8 milhões de pessoas para uma população de 70 milhões, eram filmes que tinham uma boa qualidade e uma independência estética em relação as produções hollywoodianas, hoje os gringos mal conseguem por mais de 1 milhão de espectadores em nossas salas de cinema com seus blockbusters que saturam todas as salas e tem uma propaganda agressiva na mídia – TV, rádios, revistas e jornais. Na música se diz o mesmo em relação a produção de discos, temos vários lixos que mal vendem 50 mil cópias e esses lixos vivem nos anais da mídia, enquanto outros artistas vendem a mesma quantidade ou até mais e são boicotados, vale dizer que essa quantidade de discos vendidos é a mesma de 40 anos atrás, quando tínhamos uma população de 70 milhões e agora temos 170 milhões. Façam seus cálculos e suas comparações e reflitam em relação a quem se beneficia dessa dominação cultural e qual o benefício que essa dominação trás, será que é econômico, será que é político ou será que é pra dominar só por dominar?

III

Em relação as produções cinematográficas, penso que os brasileiros devam dar uma olhada melhor ao que foi o Cinema Novo e o Cinema Marginal, além dos esquemas de distribuição de filmes trash que ainda funcionam em círculos fechados, também temos que observar de forma atenta como procede o modelo de produção na Índia – Ballywood e na Nigéria – Nollywood, sendo este último o país que mais produz filmes por anos, o dobro do que é produzido nos EUA, além disso o país que não tem salas de cinema, a distribuição é em VHS e DVD e se faz por vendedores ambulantes. A Nigéria conseguiu criar uma indústria que fala diretamente com o seu povo e que é geradora de mais de 1 milhão de empregos sem apoio do governo e ainda por cima venceu o imperialismo cultural da Europa e dos EUA.

Sobre a produção musical, temos que estar a atento a internet e ao MP3, ver essa possibilidade com mais atenção e seriedade, também temos que rever o nosso passado nos tempos áureos do rádio, podemos tirar boas lições dessa época, sobre a parte estética e por que não dizer ética, fica claro que a música regional nossa é a maior frente contra a dominação cultural, por isso temos que defender a cultura regional e popular com unhas e dentes frente a destruição promovida pelas gravadoras multinacionais, seja atacando diretamente a nossa música regional ou criando lixos que se dizem cultura regional e popular, veja o que fizeram com o pagode e o sertanejo, o mesmo se diz essa pseudo nova MPB que a gravadora Trama insiste em dizer que é música brasileira, só se for pra inglês ver.

No que se diz respeito a música contemporânea temos que lembrar das experiências mais radicais que tivemos na nossa música, a primeira é com Villa Lobos, a segundo é a Tropicália, com a banda Os Mutantes, o que tem de bom na Tropicália é Os Mutantes, o Tom Zé tenta, mas não chegou a metade do que Os Mutantes chegara, o mesmo se diz em relação ao Gilberto Gil, que está se saindo melhor como ministro do que como músico, arrisco dizer que até agora o Gilberto Gil tem sido o melhor ministro da cultura que já tivemos, em relação ao Caetano Veloso, não irei perder tempo com esse oportunista. A 3º experiência radical que já tivemos e que até agora foi a mais radical de todas é a mal entendida Vanguarda Paulista, onde o maior expoente é Arrigo Barnabé e seu disco Clara Crocodilo, na minha opinião o disco mais heavy metal do mundo!

Alguns exemplos foram citados, comparações foram feitas, falta agora uma tomada de posição dos proletários da economia criativa brasileira frente essa retórica da hegemonia cultural imposta de fora, falta tomarmos uma posição e concebermos uma cultura que rompa com isso. Não defendo que a arte esteja acima da sociedade ou das pessoas, pra mim arte é comer um pão como manteiga, não suporto artistas e intelectuais, se a arte deva virar mercadoria pra chegar ao povo que assim seja, basta que elevemos as próprias contradições da mercadoria para agitar o povo e liberta-lo dessa anestesia geral. A sorte foi novamente lançada, o momento é esse, falta a agitação, quem vai pra linha de frente?


Frederico – frederico@tribunadorock.com

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