A farsa do sufrágio universal

Passada a farsa eleitoral…

José Moreira Chumbinho

 

Eleições concluídas, entre o povo não houve festas. Festa haverá na segunda posse (segunda época), que, “democrática”, será permitido aos empregados assistí-la através das vidraças televisivas.

Não houve nenhuma proclamação que pudesse ser levada a sério, nenhuma novidade, a mínima esperança. Volta a sensação de que “não há para onde ir nem para quem apelar”.

 

No monopólio da imprensa multiplicam-se as análises sobre o nada. É preciso aparentar que, entre os candidatos, havia divergências. Há de fato, divergências que refletem os interesses das frações burocrática e compradora — frações que disputam melhor espaço no governo — porém, ardorosamente, trabalham para as mesmas classes que estão no poder: latifundiários e grande burguesia.

 

Por isso, campanhas e debates evitavam ir ao cerne da questão. Limitavam-se aos argumentos de quem seria mais competente para servir ao imperialismo. Assim, os verdadeiros interesses do povo e do anti-povo são sistematicamente ocultados para não criar embaraços ao império e às classes que o apoiam internamente. E nisso foram todos extremamente cuidadosos.

 

As classes contra-revolucionárias e entreguistas — fortemente ligadas ao imperialismo — permanecem coesas. Além do mais, o imperialismo, desde o advento da “ditadura militar”, interfere sempre no equilíbrio político, não permitindo choques que possam esfacelar oligarquias internas.

 

A farsa do processo eleitoral, promovida pelo poder, foi encomendada para aprofundar e sofisticar o próprio poder, sendo que para oxigenar as eleições não faltaram manobras, inclusive as que provocaram o segundo turno. Sempre que possível, busca-se também ocultar que 30 milhões de eleitores não compareceram, anularam ou votaram em branco. Contra as eleições de cartas marcadas surgiram também inúmeras manifestações espontâneas em todo o país.

 

O que vem agora

 

O continuísmo não sofreu um só arranhão. Mas a questão é: o que está por vir.

 

Não há dúvida: o cartel oportunista que controla o PT, os diversos movimentos “populares”, as ONGs etc. pega pesado. Persegue, sabota, aniquila. Pouco importa tratar-se de “companheiro” de direção, e de “propoxtas” passadas.

 

O cartel acumulou forças, demonstrou que contava com a impunidade diante de tantas provas (ainda que consentidas) de corrupção que se tornaram públicas e que vive o período de esplendor do oportunismo. Tudo ele faz para bem servir à metrópole, conquistar seu espaço no poder como se do oportunismo esse cartel emergente fosse o mais classificado. A pelegada veio para brilhar e para isso se preparou. Qualquer prejuízo em termos de prestígio entre as massas está previsto no custo benefício do poder. Simples manifestações de repúdio não afetarão a blindagem dos grupos que verdadeiramente dirigem o poder, nem mesmo dos que têm a missão de fingir que governam.

 

Também o monopólio imperialista das comunicações que opera no Brasil precisa sustentar que a eleição teve alguma importância, que foi eleito o “presidente operário”, que todos foram às urnas atendendo aos apelos patrióticos, à ética e ao “exercício da cidadania” —, terminologias cujo significado preciso é igualmente adulterado.

 

O eleito é uma espécie de robô, um instrumento, mas nunca um operário. Os operários apenas levam a culpa de terem votado. O poder, cada vez mais desmoralizado, ele tenta transferir para o povo sua própria reputação.

 

É verdade, ninguém elege “presidentes” por acidente. Além do mais, um segundo mandato significa que o atual passou pelo “teste de vendas” da nação. Homologou as anteriores e entregou o que faltava: aprovado como candidato, a farsa eleitoral faz o resto.

 

Mesma finalidade

 

Como no passado, legendas salvam o monopartidismo. O gerenciamento militar assegurava (contra o povo) duas legendas: a do Sim e a do Sim senhor (as antigas Arena e MDB), até que o povo fez rebentar as duas, saindo às ruas, no que resultou num grande movimento aberto contra a ditadura militar. Como as grandes lideranças ideológicas tinham sido exterminadas, restou o caminho parlamentar — tanto quanto o das lutas econômicas (sindicais) e o das as acanhadas liberdades democráticas — que aos poucos passaram a ser monitorados pela direção do PT, com o auxílio do grupo orientado pelo senhor João Amazonas e outros bandos oportunistas e revisionistas, enquanto organizações mais consequentes buscavam resistir.

 

Na fase seguinte (“redemocratização”), o poder evoluiu em degeneração e sofisticou as legendas, mantendo ultimamente a do Yes Sir e a do Yes my boss** (PSDB e CIOSL-PT, respectivamente), que no geral em nada diferem, acompanhadas de outras siglas do oportunismo eleitoreiro.

 

As eleições, que são investimentos sempre mais pesados, trouxeram agora para o novo legislativo grande parte dos “representantes do povo” constituída por milionários, como anuncia a própria imprensa deles. Mesmo assim, Luiz Vaz e Fernanda Guzzo, numa matéria que aparece no Correio Braziliense e que circulou fartamente por vários meios de comunicação, com base em informações cedidas pelo Tribunal Superior Eleitoral revelam que a cúpula que integra o Congresso foi financiada por mineradoras, siderúrgicas (as privatizadas, agora nas mãos dos gringos), empreiteiras, e instituições financeiras. A “ajuda” somou R$18,8 milhões. Sem distinção de siglas, ela atingiu o PFL, PMDB, PSDB e os dois maiores e orgulhosos representantes da falsa esquerda: PT e PC do B.

 

Luiz Inácio respondeu rápido e automático à apuração dos votos: permanece o arrocho, o crescimento da dívida pública, enquanto que recursos para as políticas sociais básicas (ensino, saúde, saneamento, habitação etc.) continuarão transferidas para os banqueiros. Vão aprofundar a “política fiscal dura”, “reforma política”, as mais deslavadas mentiras sobre o “desenvolvimento”, e a acentuada perda, como de costume, das garantias trabalhistas e democráticas.

 

Nada deverá alterar as maquinações que favorecem a concentração de capitais no campo e na cidade, o aprofundamento da desnacionalização, do extrativismo mineral e vegetal (roubo de matéria prima), da monocultura e da política de subjugação nacional. O ensino, como a saúde, anunciam os discursos, contarão com o intenso aumento da propaganda, único investimento nesses dois setores, como de praxe. Já a segurança — para o poder semifeudal, burocrático e semicolonial — é um conceito inseparável da repressão ao povo pobre. Menos de 15 dias após o resultado eleitoral, uma brutal repressão desabou sobre os camelôs em São Paulo. A matança de favelados prossegue de forma avassaladora, vitimando principalmente jovens e crianças.

 

Sempre os quadros

 

O mesmo monstro que gerou a chamada ditadura militar, por décadas foi se apoderando da economia de nosso país e, em 1964, se assenhoreou de vez do aparelho de Estado e de governo. Por isso veio o golpe de abril naquele ano e esse mesmo monstro permanece no poder. De maneira mais sofisticada, conduz os negócios coloniais de nosso país, mudando, quando pode, sua aparência e composição.

 

Durante décadas, o imperialismo formou quadros contra-revolucionários e permanece instruindo a gente mais desclassificada da sociedade brasileira para gerenciar seus interesses. Os submissos, passada a farsa eleitoral, trocam impressões. Confidenciam, sorriem, loteiam a área ministerial, e catam vorazmente o que cai da mesa do imperialismo.

 

Serão altos especialistas os futuros ministros? Vão elaborar avançados projetos que servirão ao país? Absolutamente, não. A mudança ministerial (variando em razão do volume do capital em jogo) lembra a clássica distribuição de secretarias nos governos estaduais e os comentários que a acompanha:

 

— … Então, papai gritou para o governador: “Olha aqui, fulano, o departamento de material da secretaria de Saúde é da minha família, entendeu? Da minha família!

 

Os antigos papas do servilismo seguem expectorando teorias e instruções semicoloniais e semifeudais. Sem o menor pudor “entram e saem do Planalto pela garagem subterrânea, reservada às autoridades da casa”, como revelava o Estadão no início de novembro. Pouco importam as pastas. Se for o caso, melhor que outros as carreguem para eles. Importa cumprir as ordens, principalmente as emanadas do USA, e redistribuí-las, equilibrar os interesses da grande burguesia submissa ao império, aparando as arestas internas e administrar a crise do imperialismo que se aprofunda de maneira inevitável.

 

Na direção do PT, o cartel oportunista exibe sua inesgotável felicidade porque pode contar com tecnocratas de fino trato, gente de prestígio no diretório da escola colonial, mais que simples simpatizantes da causa e iniciados na arte de bem servir ao império ianque. Isso confere ao cartel um outro status e mais uma demonstração de “força”. De quebra, finge que mudanças no plano econômico pertençam à área de competência dos gerentes coloniais, ou seja, à área de serviço.

 

O crescimento da economia, o “milagre econômico” durante a gerência militar era baixíssimo (10 a 12%) em comparação com o período de Juscelino e João Goulart (18%), últimos presidentes brasileiros. Até agora, assegurado pela gerência FMI-PT, o crescimento é de 3%, no máximo, embora anunciem um futuro 5%. No caso de advirem recessões para beneficiar o “desenvolvimento” do Fundo Monetário Internacional, a culpa novamente recairá sobre o povo, aquele que “não soube escolher”.

 

Nesse ponto, a “estabilidade monetária” pode sair de moda porque especialistas em inflação, desde a matriz, receberam orientações para proferir novas elocubrações sobre o tema. Porém, se cai a estabilidade monetária, isso afetará os interesses de uma das frações — que reclamará compensações a serem concedidas pelo governo.

 

Daí a verdadeira razão do encontro, um dia após as eleições, entre Cardoso (solto e faceiro) e cerca de “380 empresários”, afora o mundo da elegância do jornalismo (lá deles). Reuniões dessa natureza, guardam sempre como pretexto discutir a economia nacional — como tradição, em meio a um jantar, discursos elogiosos e outros rituais de descarado luxo e ostentação — de modo a perpetuar o Brasil escravizado cujo povo passa fome para sustentar o capital financeiro internacional. Dessa vez, o “encontro” foi no Hotel Hyatt, um desses cinco estrelas de São Paulo.

 

Bem, esse é o lado deles. O do povo é uma outra história. Ver editorial.

 

Mentiras, verdades

 

 

 


 

*CIOSL – Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres. Surge em 1949, financiadas pelos magnatas ianques e ingleses, provocando uma dissidência na gloriosa Federação Sindical Mundial – FSM.
A CIOSL é uma junção das AFL-CIO, TUC e CIO. Seu braço (Secretariado) para a América Latina é a ORIT (Organização Regional Interamericana dos Trabalhadores), fundada em 1951, ligada ao Iadesil (Instituto Americano de Desenvolvimento do Sindicalismo Livre) que administra cursos de “liderança” sindical e já formou uma imensa quantidade de pelegos em toda a América Latina e no mundo.
A Central Única dos Trabalhadores CUT, a Força Sindical e algumas outras “confederações” são filiadas à CIOSL. O sindicalismo de direita no Brasil também recebe orientação da social-democracia “socialista” da Europa, corrente oportunista que foi à bancarrota no período da primeira guerra e ressuscitada pelos revisionistas modernos e por toda a reação internacional.
A AFL (Federação Americana de Trabalhadores) surge em 1955 e é a maior central sindical dos USA, enquanto que a CIO, outra central do mesmo país, é menos expressiva. TUC é Federação Inglesa. Já a Federação Sindical Mundial (FSM), criada em Paris, em 1945, chegou a ser a mais combativa organização sindical do mundo, mas caiu em mãos do social-imperialismo russo. Seu último congresso, ainda representativo, ocorreu em Pequim, por volta de 1960.

 

**my boss — meu patrão, meu chefão, poderoso. O presidente ianque, por exemplo, é chamado de big boss que, hoje, nos estertores do imperialismo, equivale a “chefão maior”, no sentido mafioso do “poderoso chefão”. Yes Sir é um mais convicto e servil “sim senhor”.

Retirado de AND

Frederico – frederico@tribunadorock.com

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