Posts de Abril, 2008

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O destino de Betancourt

Abril 8, 2008

04/04/2008 15:49:32

Wálter Fanganiello Maierovitch

Jacob Arenas foi o primeiro dirigente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele gostava de contar um fato ocorrido em maio de 1964, do qual resultou o nascimento das Farc, no Vale de Marquetalia, departamento de Caldas, no lado oriental da cordilheira andina.

Camponeses, posseiros e pequenos proprietários, vinham, à época, sendo expulsos violentamente das suas casas por latifundiários desejosos de estender os seus domínios improdutivos. Então, pequenos grupos de resistência se formaram. Na seqüência, o Exército colombiano interveio e promoveu sangrentas batalhas, em favor dos latifundiários.

Anastásia era a mais bela e sensual das jovens de Marquetalia. Em 27 de maio de 1964, 16 mil soldados caçavam pela região cerca de 40 guerrilheiros, dentre eles Jacob Arenas e um pequeno sitiante, rude e desconhecedor de ideologias políticas, chamado Manuel Marulanda Vélez. Como Marulanda era bom de pontaria, acabou logo apelidado de Tiro Fijo.

Naquele mesmo ano, Marulanda preparou uma mina com dinamite e pedaços de ferro, colocada num barril de aguardente. À mina, Marulanda chamou de Anastásia, em homenagem à jovem. Coube a ela atrair um pelotão de soldados, todos mortos pela explosão da mina e por uma tempestade de projéteis disparados pelo grupo de Marulanda.

Esse foi, segundo Arenas, o primeiro grande embate, que levou o grupo, com o reforço das armas e munições dos soldados mortos, a fundar as Farc, em 20 de junho de 1964.

Depois dessa história, Arenas narrava o dia seguinte à batalha. Ou seja, Tiro Fijo e os seus vizinhos organizaram uma festança, com dança, cantos revolucionários, tudo ao som de maracas e violões. “Éramos felizes”, concluía Arenas, “pois combatíamos, comíamos, dormíamos, cantávamos e recitávamos pedaços de pequenas peças de teatro.”

Arenas morreu de infarto em 1990, aos 72 anos. Não realizou o sonho de morrer em combate, grudado ao cano de um fuzil ainda a soltar fumaça. Quando faleceu, as Farc já eram integradas, como hoje, por sete secretários, com o fundador Manuel Marulanda no comando-geral.

Arenas, no entanto, jamais imaginou que a organização fosse mudar de orientação, a explorar as extorsões mediante seqüestro, controlar áreas de plantio de coca, receber porcentual pelo produzido nos laboratórios de refino de cloridrato de cocaína e, por fim, experimentar litígios entre os seus membros de cúpula. Em síntese, a organização perdeu a identidade, colocou de lado o marxismo e se transformou num bando criminal, com dirigentes insensíveis e assassinos.

No mês de março, a crise atingiu o vértice das Farc. Morreram Raúl Reyes e Ivan Rios, cujo nome verdadeiro era Manuel Muñoz Ortiz. Reyes foi executado em território do Equador, pelas forças invasoras do presidente Álvaro Uribe, como fartamente noticiado. Por seu lado, Ivan Rios restou metralhado por um seu comandado de nome Rojas, com apoio dos demais subordinados. Rojas entregou o passaporte e o computador da vítima para o oficial do quartel de San Mateus.

O comandante Raúl Reyes mantinha dissenso aberto com Ivan Rios, o delfim de Marulanda. Rios tinha feito estudos universitários em Medellín e era considerado, por Marulanda, o mais bem preparado intelectualmente. Apesar dos atritos, os dois guardavam o mesmo segredo sobre Marulanda, que, segundo corre pelas selvas, estaria com câncer e em fase terminal.

Num recente encontro com o filósofo e documentarista Bernard-Henri Lévy, o comandante Ivan, o terceiro dos sete secretários da cúpula das Farc, mostrava um novo lado, a surpreender o francês.

Em artigo publicado na imprensa européia, Henri Lévy conta ter Ivan Rios tentado convencê-lo de que a postura das Farc com relação às drogas representava uma forma de “resistência à opressão, um meio de defesa da classe camponesa pobre, pilhada pelo grande capitalismo”. Quanto aos seqüestros, mostrou-se desumano e inescrupuloso.

Para ele, havia “profunda justiça” na estratégia empregada com os cativos de seqüestros. Esse quadro é de pleno conhecimento do presidente francês Nicolas Sarkozy, que, com razão, teme pela morte de Ingrid Betancourt. Emissários de diferentes países, com a liderança do ex-embaixador francês na Colômbia, encampam uma luta humanitária e correm contra o relógio para salvar Betancourt, também cidadã francesa.

A mensagem de Sarkozy passou pela análise de vários especialistas e o recado foi bem dado: “A morte de Ingrid seria um erro político e uma tragédia humanitária”.

Lógico que a crise aberta na cúpula das Farc é do conhecimento da brava Betancourt. Para os que conhecem a flama de Betancourt, a greve de fome que faz é um ato lúcido, embora uma via que poderá conduzi-la à morte.

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Cria da Xuxa

Abril 8, 2008

Ex-assistente de Xuxa estrela pornô

A atriz Grazi Fantini, que intregrou o elenco do programa global Planeta Xuxa, estrela a produção pornô A Ninfomaníaca e o Pitboy.

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Em entrevista a um programa da Rede TV!, Grazi, que aparece no filme com uma roupa que faz alusão ao uniforme das Paquitas, afirma que é ninfomaníaca e jamais consegue ficar satisfeita com a quantidade de sexo que pratica.

No filme, a atriz contracena com Marcelo Mathias, ex-integrante da terceira edição do reality show Casa dos Artistas, exibido pelo SBT e que atualmente faz participações no quadro Bofe de Elite, exibido pelo programa Show do Tom, da Record.

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Discurso Reaça II – Ocupações Urbanas e o Imperialismo

Abril 7, 2008

Parte 1 – Ocupações Urbanas

Parte 2 – Imperialismo

Segue a entrevista contida no anexo do CD do Estoque. A entrevista foi feita por Cardes Amâncio.

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Discurso reaça de esquerda?

Abril 6, 2008

ESTOQUE – Thrash Core Anarquista – 2006 – Independente

Apesar dos cabelos compridos a banda de Curitiba não tem nada a ver com metal melódico e afins. Algumas influência do metalcore do anos 80 e outras transgressões são perceptíveis. O discurso libertário-anarquista soa quase como discurso de partido reaça de esquerda ou de anarco-punk. O tema “ocupação urbana” e imperialismo é uma constante em todo o trabalho. O CD inclui 12 faixas, clip, um show ao vivo (o apresentador tentando descrever a banda é cômico) e uma entrevista feita em 2004.

Resenha de Carlos Lopes (O Martelo, Mustang e ex-Dorsal Atlântica)

Obs: Pra quem quiser conhecer o discurso reaça da banda, as letras estão aqui.

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CONVITE

Abril 6, 2008

Convidamos a todos os alunos e professores para comparecerem no Encontro do Governador com seus Secretários no Auditório do Museu Oscar Niemeyer – MON, no dia 08 de abril, a partir das 8 horas e 30 minutos, onde a CINETVPR fará uma apresentação de suas atividades.

Atenciosamente,

ITTALA NANDI

Coordenadora da CINETVPR

OBS: O evento será transmitido ao vivo pela RTVE.

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A FAP SE SUPEROU!!!

Abril 2, 2008

Relutei muito em fazer comentários sobre o que ocorre na FAP e na CINETVPR, mas depois dessa reportagem começarei a fazer uma série de análises do ensino superior local e do “modelo FAP” de gestão educacional, além do que é a pseudo cena cinematográfica curitibana. Só no dia da mentira pra sair essa reportagem na Gazeta do Povo. Quando li senti um fedor de rancor e revanchismo pessoal, algo muito comum nessas bandas.

Da Conjuntura

Sou aluno do polêmico curso de cinema em questão, o qual já rendeu outra reportagem rechaçando não só o curso mas a pessoa da Ittala Nandi. Figura que tem o meu respeito pelo o que ela já representou para a cultura brasileira, apenas isso! Infelizmente, a jacuzada grita e sente desconforto quando tem a chance de mudar de seu status quo medíocre para outro patamar cultural.

Prestei três vestibulares pra entrar nesse curso e só resolvi faze-lo pelo projeto CINETVPR, o qual pretende montar um pólo de cinema. Sempre fiquei com o pé atrás em ter um diploma da FAP, nada contra aos que estudam e são egressos dessa instituição, mas quem conhece sabe do que estou falando. Das três ações que o projeto CINETVPR que se pretende realizar, apenas duas foram encaminhadas. Uma é o problemático curso de cinema, a outra é o festival que ainda deixa a desejar. A idéia inicial para o curso era monta-lo nos moldes da Escola de Cinema e TV de Cuba, mas infelizmente o projeto esbarrou em obstáculos difíceis de se transpor. O primeiro foi a burocracia brasileira, o qual foi vencido; o segundo foi a classe artística local, “os lisos” que foram derrotados pela a sua própria imbecilidade; o terceiro e último foi a FAP, caso que foi resolvido com a eleição da atual diretoria, que é composta por pessoas de todos os cursos, menos os ligados ao Departamento de Teatro. O que foi uma boa limpa pra FAP e, querendo ou não, ajudou a fazer a Faculdade ir pra frente.

Porém. Quando tudo tinha se resolvido, eis que surge um obstáculo intransponível – Ittala Nandi, uma verdadeira muralha que nem David Belle consegue transpor. Aliado a isso, os outros problemas voltaram com toda a força e qualquer esforço para fazer pólo de cinema uma realidade se transforma em uma atividade penosa. Desde de que entrei nessa faculdade só levei porrada, ora da FAP pela sua desorganização e ora da Ittala. Somado a isso temos a passividade do corpo estudantil que aceita tudo o que é imposto. Da parte dos estudantes muito tem se progredido, mas ainda falta muito.

Dos Fatos e não das Fofocas

Em primeiro lugar, não se sabe se a Ittala Nandi deixou o curso ou se o curso deixou a Ittala Nandi. Outro problema é saber quem está responsável pelo curso, porque a Direção e o Departamento de Comunicação da FAP não conseguem sanar essa dúvida. Somado a isso tem-se a política de desinformação dos setores que tem birra pessoal com a Ittala. Vide o exemplo do que esse setor atrasado tem falado aos calouros a respeito do Parque Newton Freire Maia; dizem que ele é um campi da FAP, dizem que toda a infra-estrutura do pólo é do curso de cinema da FAP. Curso que tem um currículo ridículo e que não apresenta nem um ementário.

A reportagem tem falado dos professores concursados que são “doutores” e/ou “mestres”, mas se esquece que o curso de cinema não tem tradição acadêmica no Brasil e que esses diplomas e o mérito de suas “cátedras” são pra lá de questionáveis. Na FAP, me parece que quanto mais titulação o professor tem, pior ele é em sala de aula. Das disciplinas que tive, os “acadêmicos” passaram um conteúdo raso, tendencioso e muito equivocado. Aulas sem preparo e muita confusão com conceitos básicos de filosofia, sociologia e comunicação social. Se não bastasse isso temos o problema de a maioria dessa turma ser pós-moderna ou ter uma certa inclinação.

Os ditos professores “efetivos” são os que sempre desmarcam as aulas na sua véspera, uma hora antes do horário. São os que chegam atrasados e encerram a aula muito antes do horário; são os que não tem critério para realizar uma avaliação e os mesmos que não passam as notas nos prazos da Faculdade. Reclamam que seu salário é ínfimo e que não recebem nada para serem professores da FAP, dizem que estão lá por prazer e que tem muitas dificuldades em sua atividade e que não são valorizados. Pois bem, acompanho a luta pela a educação já faz quase 10 anos e nunca vi um desses caras no fronte. Recentemente ocorreram várias mobilizações dos professores da universidades e faculdades estaduais do Paraná, mas essa movimentação passou longe da FAP. Então me pergunto, onde estavam esses “professores” da FAP? Faço a mesma pergunta para o Coordenador do Curso, onde está o coordenador do curso? Por que será, que ninguém quer ser coordenador do curso de Cinema e Vídeo da FAP?

Dos Professores Convidados

Na reportagem do ano passado, a Gazeta do Povo tratou os Professores Convidados como aberrações. Disse e afirmou uma série de fatos inverídicos. Mas, a Gazeta, se esqueceu que a necessidade de chamar professores convidados foi uma forma de aproximar a Escola dos profissionais conceituados e em atividade, para isso a grade horária do curso tem que ser modular e o valor da hora aula tem que ser alto. Nesse esquema a presença da Ittala Nandi é, bem dizer, uma forma de facilitar esse contato com o pessoal do audiovisual. A CINETVPR tinha como professores em seu quadro pessoas como: Walter Lima, Felipe Lacerda, Alziro Barbosa, Evaldo Mocarzel, Wilson Rocha e etc. Hoje está verba está sendo utilizada para chamar pessoas sem respaldo e conceito algum no audiovisual, salvo os acadêmicos da Unicamp e Unisinos, mas esses podem muito bem serem professores visitantes ou convidados como era o caso do professor José Dias.

Mas afinal de contas, onde anda o José Dias? Será que o único critério para ser professor convidado ou visitante da CINETVPR/FAP é o amiguismo e bairrismo?

Continua…

 

Frederico

Post-Scriptum: Quem não gostou que se foda! Se quiser processar pode vir!

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“Este julgamento é um ataque a todos os setores populares”

Abril 1, 2008

Apesar das diferenças com o MPL e com o Marcelo Pomar, fica o apelo pelo arquivamento do processo movido contra ele.

Para Marcelo Pomar, militante do Movimento Passe Livre, o processo em que é acusado de incitação ao crime é um “precedente negativo para os movimentos urbanos, com a mensagem de militantes que se organizam e intervém politicamente na sociedade podem ser condenados”.

No dia 13 de maio você irá a julgamento sob a acusação de incitação ao crime. A versão da polícia, que lhe prendeu durante uma manifestação em que um grupo não identificado de agressores realizou um súbito ataque aos presentes no protesto, é de que você gritava “lincha, lincha”. O que aconteceu naquele dia?

No dia 16 de fevereiro de 2006 a Frente Única Tarifa Única Sim, Aumento Não! organizou um ato no Terminal do Centro. Não era um ato com bloqueio de ruas, mas uma panfletagem no calçadão, absolutamente dentro dos parâmetros democráticos. Naquela ocasião eu observei que havia uma movimentação esquisita de um pessoal mais ou menos padronizado. Eram fortes, altos, cabelos curtos e raspados, tipo militar. Nenhum deles tinha brinco. Apenas um deles tinha tatuagem. Observei isso depois nas fotos. Estou dizendo tudo isso porque determina mais ou menos um perfil. E também porque, no dia seguinte, o Diário Catarinense sugeriu que fosse uma atividade de cunho político-ideológico, pessoas que eram favoráveis à tarifa única que foram se queixar da nossa manifestação contrária. E, na época, nós nem éramos contra a tarifa única. Estávamos questionando aquelas alterações que estavam sendo feitas no sistema de transporte, mostrando que parte delas era fruto das manifestações populares dos dois anos anteriores. Não era como o Dário estava querendo vender a história, de que era uma resolução do problema por conta de uma benevolência dele. Eu estava observando essa movimentação esquisita, anunciei isso para algumas pessoas e, de repente, nós fomos atacados por um grupo de 16 desses homens, que destruíram a aparelhagem de som, rasgaram as faixas, roubaram os panfletos e agrediram algumas pessoas. Embora não tenham ido numa intenção clara de agredir as pessoas, tinham como intenção destruir a manifestação. Aquilo pegou todo mundo de choque porque não é esperado esse tipo de reação, isso é uma coisa brutal.

Foi algo inédito?

Depois descobri, na realidade o padre Wilson Groh me contou, que houve uma coisa similar aqui em Florianópolis alguns anos antes numa vigília que ele, padre Wilson, estava organizando com moradores do morro. No ato os moradores se deitavam na rua para se fingir de mortos e aconteceu uma coisa similar. É uma coisa inaceitável, um absurdo completo. Um atentado ao mínimo de liberdade política e democrática que se conquistou na luta contra a ditadura. E, após o ataque dos agressores, as pessoas se revoltaram, inclusive a população. Várias pessoas começaram a xingar os caras, se manifestar contra eles, pedindo que a polícia os prendesse. Eu pedi acintosamente aos policiais que estavam próximos que prendessem os caras. Mas, ao contrário disso, a polícia escoltou a saída deles e, no meio daquele burburinho de “lincha, lincha, lincha”, acabou me prendendo afirmando que eu tinha incitado o crime de linchamento. Quando na verdade eu estava tendo uma postura contrária, de pedir o não linchamento dos agressores. Nessa ocasião a polícia me prendeu e prendeu também o fotojornalista do Diário Catarinense, Cláudio Sarará, sob a acusação de desacato à autoridade. Na realidade aquela prisão teve mais a ver com o fato do Sarará ter registrado aquele momento de uma ação irregular da polícia. Ele era o único fotógrafo oficial que estava ali, as outras fotos são do Centro de Mídia Independente, e isso ajuda a explicar, do meu ponto de vista, porque houve a tentativa de destruir o filme imediatamente. O Sarará inclusive quebrou dois dedos da mão naquela ocasião tentando defender seu material, seu equipamento…

Enquanto um policial tentava arrancar a câmera de sua mão, situação que foi registrada por um manifestante.

Isso, o policial queria destruir o filme. Destruiu parcialmente, mas o Sarará conseguiu salvar algumas dessas fotos. Ele foi preso e, como tinha bebido uma cerveja antes, quiseram justificar a prisão dele, atacando um profissional de quase 30 anos de jornalismo. Ganhou prêmios internacionais cobrindo violência policial, inclusive. Foi preso e demitido. Um absurdo o que fizeram com ele. E a polícia me prendeu e escoltou os agressores. Houve uma inversão de valores, porque na realidade eu fui vítima daquilo. Como todos nós que participamos daquele ato. No momento da minha prisão o policial me algemou de uma maneira fora do padrão, minha mão ficou bastante machucada. O Sarará apanhou, estava com o olho roxo, apanhou no camburão. Ele me disse isso porque eu fiquei preso com ele no porão da Central de Polícia. É verdade que ele estava bastante alterado, no sentido de estar indignado. Ele enfrentou mesmo os policiais. Não que ele tenha partido pra porrada, até porque é uma luta desproporcional. Mas no sentido de dizer o absurdo que eles estavam fazendo. E os policiais ameaçando e tirando sarro dele. Me lembro de ter falado pra ele que não adiantava falar com aquela gente ali embaixo, porque aquilo é uma coisa meio sádica, aquele poderzinho que eles têm ali e querem exercer. Nós fomos levados pra Central de Polícia e lá me fizeram assinar um Termo Circunstanciado para eu responder um processo, em liberdade, sobre essa acusação de incitação ao crime de linchamento.

E o processo vem em nome do Estado.

É, o Estado está me processando. O Estado que deveria proteger as minhas liberdades democráticas, o direito de me manifestar politicamente, porque é isso que a Constituição de 1988 diz. E a Constituição foi escrita sob uma circunstância histórica de muita luta. O Estado que deveria me proteger quer me condenar. Me levou à júri, o Ministério Público ofereceu denúncia e agora dia 13 de maio eu serei julgado.

Foi feita alguma solicitação de investigação da identidade dos agressores? Não apenas para descobrir quem eram, pois isso veio à tona depois, mas para desvendar quem seriam os mandantes, ou mandante, daqueles sujeitos?

Eu solicitei isso, mas ali fui tratado como um criminoso, não havia condições de solicitar nada. E depois a gente descobriu, inclusive porque fomos até o Ministério Público (MP), que o MP tinha solicitado para a Polícia essas gravações e a Polícia teria dito que essas fitas sumiram. O fato é que não houve nenhum esforço de identificação. O único esforço que houve foi nosso. Descobrimos coisas significativas. Descobrimos que eram seguranças privados, na sua maioria; que trabalhavam numa empresa de segurança de São José, a VIP Segurança. São José que era a cidade do prefeito Dário Berger (PMDB, ex-PSDB). Mas foi a única coisa que se descobriu. Da parte do Estado não houve nenhuma iniciativa no sentido de coibir a ação absurda que aconteceu aquele dia, uma ação fascistóide, para-militar.

Este processo por incitação ao crime não é um fato isolado na história das lutas do Movimento Passe Livre e do movimento pela redução das passagens. Outros militantes também já foram processados e você mesmo já respondeu a outras acusações. Quais foram?

Não foi o meu primeiro processo, mas nenhum deles chegou a esse estágio. Eu vejo esse julgamento como continuidade das grandes manifestações de 2004 e 2005, contra os aumentos nas tarifas de ônibus. Eu penso que esses caras, o judiciário, a elite da cidade, não deram uma punição para alguém que eles consideram importante nesse processo. Eles estão vendo nisso uma oportunidade. Porque as coisas deram uma esfriada. A Revolta da Catraca foi um processo histórico, uma coisa excepcional e a ataque dos capangas em 16 de fevereiro de 2006 estava na esteira disso tudo. Não foi uma coisa deslocada. Ela só ocorreu porque tinham acontecido as lutas de 2004 e 2005. Mas em 2004 eu fui preso e em 2005 também.

Em 2004 tinha o Interdito Proibitório que te impedia de permanecer a uma distância menor do que 3km dos terminais de ônibus.

O Interdito Proibitório, na realidade, foi desenterrado de agosto de 2003, quando foi lançado o Sistema Integrado de Transporte. Naquela ocasião nós fizemos uma manifestação no SIT e por conta disso sofremos o Interdito Proibitório que era designado para a Campanha do Passe Livre e para o Sintraturb, o sindicato dos trabalhadores no transporte. E eles colocavam o meu nome como sendo responsável pelo Passe Livre.

E era em nome de quem, da prefeitura?

Da prefeitura. Angela Amin (PP), na época. E quando aconteceu a Revolta os caras desenterram aquilo e um oficial de Justiça foi me entregar o Interdito Proibitório e me levaram preso na seqüência. Também de maneira irregular, eu não tinha cometido nenhum crime. Esperaram uma situação em que eu me afastei um pouco da manifestação para dar uma entrevista para uma rádio.

Irregular como? Você não estava no terminal?

Não estava no terminal, estava próximo da minha casa, no Centro. E fui pego por quatro homens à paisana. Você vê, mais uma vez uma ação irregular, como no caso de 2006, embora em 2006 tenha sido mais grave. Eram policiais à paisana, P2. Me levaram para o 4o Batalhão. Ali fiquei preso, também assinei um Termo Circunstanciado algumas horas depois e aconteceram audiências preliminares, mas o processo não foi à frente. Foi arquivado, porque não havia nenhuma sustentação, foi uma prisão irregular. Como eu também esperava que o processo de 2006 fosse arquivado, mas esse não foi.

E em 2005?

Em 2005 uma nova prisão, também por conta de manifestações do Movimento Passe Livre e da luta contra o aumento das tarifas, a revolta popular que conseguiu barrar o aumento das tarifas. No primeiro dia me prenderam, 31 de maio. Prenderam a mim e outros dois militantes do MPL, Flora Muller e André Moura Ferro, também de maneira irregular. A manifestação já tinha acabado. A polícia esperou o ato acabar e me prendeu. E, outra vez, respondi a um processo que foi arquivado.

Vocês foram acusados de formação de quadrilha.

Isso.

Quando o processo por formação de quadrilha foi arquivado?

Em 2007, ano passado. Houve outros processos que não chegaram a ser processos exatamente. Boletins de ocorrência que foram feitos contra mim. Uma vez, inclusive, pela própria prefeita, Angela Amin, dizendo que eu teria feito uma montagem na internet com ela nua com o marido dela. Isso foi encontrado num blog de um rapaz, blog dele, ele diz que fez, mas como o rapaz botava fotos das manifestações… Esse também não foi adiante. Quer dizer, existe uma tentativa sistemática. Todas essas tentativas envolvendo atividades políticas, envolvendo as manifestações de 2004 e 2005, de criminalização do movimento, criminalização de algumas pessoas que eles consideram representantes desse movimento. E esse último processo tem um agravante. Esse teve as audiências preliminares e está sendo levado a julgamento. Quer dizer, no dia 13 de maio eu posso ser simplesmente condenado. Condenado à prisão, à prestação de serviços ou qualquer coisa do gênero.

O Interdito Proibitório ainda está de pé?

Acho que o Interdito Proibitório caduca esse ano. Porque cinco anos é o prazo.

O que significa o Interdito Proibitório?

É uma aberração, juridicamente falando.

Porque não é um processo, não é nada.

Não é nada.

É um pré-julgamento.

Isso, é um julgamento prévio. Que determina que o sujeito não pode chegar num local que é público. O terminal é público – hoje ele é privado, mas de utilidade pública. Qualquer um pode utilizar aquele terminal. Eu utilizo porque não tenho carro.

A Prefeitura solicita e a Justiça determina?

Exatamente. Interdito proibitório é uma coisa típica da ditadura militar. Assim como a Lei de Imprensa, que acabou de ser revogada. Acabei não citando isso anteriormente, acabei falando mais dos meus processos, mas outros militantes chegaram a sofrer processos por escrever matérias em jornal. Processos baseados na Lei de Imprensa. A Lei de Imprensa serviu para criminalizar aqui; o Interdito Proibitório serviu para criminalizar aqui. Se utilizaram de recursos para-militares, fascistas, como os capangas, e com a anuência do Estado. A polícia prende e o Judiciário julga. É um processo muito difícil de enfrentar, é uma briga contra titãs.

Em geral dá-se à Polícia Militar os créditos por conta da repressão aos movimentos populares. Mas nós sabemos que a polícia não é o órgão pensante do status quo, mas o executor das medidas de repressão necessárias para quem detém o poder. O que você pensa sobre isso?

A polícia é uma corporação que historicamente serve para manutenção da ordem, a ordem que existe, o status quo. Eles cumprem esse serviço. Agora, a polícia é feita de trabalhadores. Homens e mulheres que têm filhos, que têm suas dificuldades, que ganham mal. A polícia em Santa Catarina tem uma organização bastante forte. Uma organização com várias lutas históricas, a Associação dos Praças de Santa Catarina (Aprasc), que inclusive tem representante na Assembléia Legislativa, na figura do deputado Soares. A Aprasc, em diversas ocasiões, fez um trabalho de parceria com o MPL. Mas não dá pra confundir isso com a instituição em si. A instituição funciona, sim, para manter esse estado de coisas. E nesse caso específico ela funcionou como um agente de repressão. E não só de repressão, porque nesse caso não foram eles exatamente que organizaram a repressão. Eles organizaram a fuga da repressão extra-Estado. A repressão que não é a repressão legal, que estávamos acostumados a enfrentar. E quando eu falo em enfrentar não é enfrentamento à força. Até porque nos não somos idiotas. Ninguém em sã consciência vai enfrentar um batalhão de choque. Nós estamos fazendo discussão política. Esse é o terreno que nós estamos debatendo. E esse é um terreno que foi garantido, as liberdades democráticas, não podemos recuar em relação a isso. Agora, não tenha dúvida, no fundo, a polícia ali estava servindo aos interesses da Prefeitura que estava muito desgastada com a situação do transporte. São duas gestões de desgaste, desde a família Amin. A família Berger também não conseguiu resolver o problema da mobilidade urbana, do transporte da cidade. E como existe uma concepção tacanha, atrasada, ditatorial de sociedade, eles acham que a forma de resolver é através da repressão. E se a repressão institucional não resolve, utiliza-se outro tipo de repressão que é essa repressão de capangagem, para-militar, fascistóide, utilizando a polícia só como outro recurso.

Esse julgamento parece ter contornos da exposição clara sobre o processo da luta de classes em Florianópolis. O que está em jogo não é só a tua condenação, mas a condenação dos próprios movimentos sociais. Você acha que os movimentos de Florianópolis compreenderam isso?

Há expectativa de que eu não seja preso. Mas existe a possibilidade de ser preso, eu não descarto. E acho que as pessoas deveriam levar isso em consideração porque, objetivamente, hoje existem vários militantes políticos que estão presos no Brasil, sobretudo os militantes do campo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Existem militantes que estão presos. Existe um militante do MST bastante conhecido, o Magrão. O senador Eduardo Suplicy (PT) esteve visitando ele, junto com o teólogo Leonardo Boff, recentemente. Existe uma articulação do MST com senadores da República, com intelectuais de destaque e o cara continua preso. Então não dá pra desconsiderar essa possibilidade, porque é a Justiça burguesa. É o jogo dos caras. Agora, pelos antecedentes, eu tenho expectativa de que isso não ocorra. Mas uma condenação sem prisão é uma derrota tão grande. Porque significa dizer o seguinte: que abriu um precedente negativo importante, para os movimentos urbanos, de Santa Catarina e de Floripa particularmente, mas pro Brasil todo, com a mensagem de que os militantes que se organizam e intervém politicamente na sociedade podem ser condenados. Condenados por fazer atividades políticas e não por cometer crime. Porque eu acho que se fosse uma situação em que nós estivéssemos falando de um crime objetivo, podíamos até entrar num campo filosófico da discussão, “o que é o crime?”, “dá para punir pelo crime”?. Mas não é nem isso. É uma situação em que um militante político estava fazendo um ato e está sendo preso por conta disso. Essa é a gravidade da coisa e por isso acho que a discussão extrapola o indivíduo Marcelo ou do coletivo que ele faz parte, que é o Movimento Passe Livre. É uma coisa para todos os movimentos sociais e os militantes da esquerda de uma maneira geral. E não só a esquerda tida como revolucionária, mas as pessoas progressistas, que lutaram contra a ditadura militar; que lutaram para se ter um mínimo de liberdade política e democrática que hoje está sendo atacada. Militantes de Floripa e outros militantes do MPL do Brasil estão articulados, fazendo contatos. Existe uma petição on-line para arrecadar assinaturas, existe um abaixo assinado para arrecadar assinaturas, existe a tentativa de articulação com vários setores da sociedade, não só com os partidos, ou com as organizações, mas com indivíduos, com a Igreja, com todo mundo que durante o período da ditadura lutou para garantir que hoje a gente pudesse falar em democracia no país. Algo que a gente vê que não é exatamente tão fácil, pois ainda existem muito resquícios daquele período que precisam ser superados.

Esse processo pode reacender a luta pela tarifa zero?

Não sei te dizer se pode dar uma reaquecida. Posso te dizer assim: existe uma tendência a dar uma reaquecida pelos fatores objetivos. A gente percebe que o que desencadeou as revoltas de 2004 e 2005 foi em grande parte os fatores objetivos. O transporte tinha aumentado quase 300% em de oito anos, num período de inflação controlada. A qualidade do transporte melhorou um pouco, isso é inegável, em relação à estrutura dos ônibus, frotas novas foram adquiridas. Mas estas melhorias não eram proporcionais a um aumento tão significativo no valor das tarifas e a qualidade em termos de ônibus não se refletia em termos de organização espacial do transporte. A organização é burra. O Sistema Integrado de Transportes é burro. Tanto é que se gastou dinheiro fazendo terminais que simplesmente não foram utilizados. São elefantes brancos. Milhões de reais jogados fora. Essas questões objetivas todas tendem a levar um novo momento do aquecimento do debate, se não a rearticulação da luta em si, pelo menos do debate da questão. Aí você tem elementos novos que não se tinha antigamente. Você tem uma organização política, o Movimento Passe Livre, focado em torno dessa questão e que tem um debate muito mais aprofundado e consistente sobre essa discussão. Talvez seja uma das únicas organizações que tem uma proposta alternativa. Do ponto de vista das elites não existe uma proposta alternativa para a mobilidade urbana. A proposta deles é o mais do mesmo, construir uma nova ponte, alargar as vias. A lógica que vem se desenvolvendo no país desde pelo menos a década de 1950, com Juscelino Kubitschek, o transporte rodoviário, a indústria automobilística. A indústria automobilística ganhou muito dinheiro, hoje produz carro como nunca produziu. Hoje em dia você não consegue ir numa concessionária pra comprar um carro. Você faz um pedido e daqui a 15 dias chega o teu carro. O aumento da produção, nós tínhamos que fazer uma discussão sobre isso. O aumento da produção é um absurdo. Por conta disso, em um clima de estabilidade na economia, as pessoas se endividam, a classe média em particular se endivida, paga 36, 48, 56 parcelas e compra carro. Não só em Florianópolis, mas no Brasil, o trânsito das grandes cidades está entrando em colapso. E não existe uma proposta alternativa. Mas você não vê, do ponto de vista da elite burguesa, a elite dirigente da cidade, uma proposta. A proposta é um absurdo, é mais do mesmo. Não é uma proposta, é o mesmo. A proposta do Crea, uma organização que deveria estar pensando nisso, o Conselho Regional de Engenharia, é construir a quarta ponte. Certo, constrói a quarta, depois constrói a quinta, a sexta, sétima e como resolve o problema? É a contramão de todos os principais problemas que hoje agravam a situação do mundo, o consumo desenfreado, o consumo fora do padrão adequado. O fato de você ter uma situação objetiva, e o fato de você ter uma organização que esteja discutindo esse debate nesse nível como o MPL está fazendo – e algumas outras organizações. Vejo o jornal do sindicato dos trabalhadores do transporte, é bastante avançado com relação a sindicatos de outros lugares – ajudou Floripa se tornar uma referência no país em relação a essa discussão. E esse ano é um ano eleitoral, talvez exista a possibilidade de esse debate aparecer.

EXTRA: Nota do MPLO Julgamento Político de Marcelo PomarAbaixo AssinadoMoção de Apoio